terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Seminário internacional de leishmaniose visceral canina - 2013

Esse final de semana, aconteceu mais um seminário internacional de leishmaniose visceral canina. E eu, sou figurinha carimbada nessa programação e privilegiada pois acontece na minha cidade natal, onde o organizador desse evento reside.

Para que se entenda a problemática é necessário saber de algumas coisas.

A leishmaniose é uma doença endêmica em 88 países, em sua maioria em países em desenvolvimento. Cerca de 90% dos casos mundiais ocorrem na Índia, Bangladesh, Nepal, Sudão e Brasil. O Brasil é o país americano com maior número de casos. Em 2009, essa endemia atingia vinte estados brasileiros. É a terceira doença de expansão vetorial no mundo.

Distribuição espacial dos casos de LVA no Brasil – 1993 a 1988, 1989 a 1994, 1995 a 2000 e 2001 a 2006. ALVES, W.A. Leishmaniose visceral americana: situação atual no Brasil. Bepa 2009; 6(71): 25-29. Slid apresentado pela Dr. Jane Cris de Lima Cunha (Fiocruz)

A região nordeste, entre os anos de 2000 a 2010, foi responsável por 47,5% dos casos humanos, ficando um pouco à frente do Estado de Minas Gerais.

Slid apresentado pela Dr. Jane Cris de Lima Cunha (Fiocruz)

A doença afeta principalmente crianças menores de 10 anos e indivíduos do sexo masculino. A infecção em crianças é justificada por ainda não ter o sistema imunológico formado. As crianças afetadas são pobres, e uma percentagem considerável vão morrer. O sofrimento dessa família é silencioso, por isso os casos não chegam na mídia. A leishmaniose só terá repercussão quando a doença se elitisar, para falar mais claro, quando crianças de gente rica morrer. Será que vamos ter que esperar isso acontecer para fazermos alguma coisa?

Isso foi uma das questões levantadas pela Dra. Jane Cris de Lima Cunha (Fiocruz), que nos fazem refletir. O que podemos fazer para mudar esse cenário?

A leishmaniose visceral (LV) é uma zooantroponose de ampla distribuição mundial. Zooantroponoses são doenças primarias nos animais e podem ser transmitidas aos homens. Mas não fique pensando aí, que a solução é exterminar os cães para controlar a doença humana. Já foi comprovado cientificamente que isso não resolve. Que outros animais fazem parte da transmissão, inclusive os gatos, além das raposas, roedores e outros recentemente descritos.

A infecção é transmitida aos mamíferos pela picada de um flebótomo, a Lutzomyia longipalpis (que não é mosquito e nunca foi mosquitinho), por que ela, a fêmea, diferentemente dos mosquitos, deposita seus ovos em matéria orgânica em decomposição, por isso é tão difícil combate-la. Além disso, o flebótomo, adaptou-se as condições domésticas em que vivemos atualmente. Para vocês terem uma ideia, eu já capturei os flebotomíneos na minha residência, e olha que são pequenininhos (2 a 4 mm de comprimento) e meu orientador capturou no seu apartamento, além de outros relatos que são divulgados no meio acadêmico, mas somente um olho treinado é capaz de realizar essa identificação.

As fêmeas dos flebotomíneos retiram do sangue a fonte de proteínas e aminoácidos que necessitam para o desenvolvimento dos ovos. Chegam a ovipor até 47 ovos em uma única postura. As fêmeas dos flebotomineos só se infectam com o protozoário Leishmania infantum, se o hospedeiro em que ela se alimentar, estiver infectado. Relembrando: cão, gato, roedores, homem... e se estes hospedeiros não estiverem disponíveis, ela se alimenta de qualquer coisa, porque ela precisa dos nutrientes que o sangue contem para ovipor e se manter viva no meio ambiente.


Slid do Dr. Filipi Dantas Torres (Bari University/ Fiocruz/ Brasileish)

Por esse motivo, não podemos falar que ela prefere o cão, que ela prefere o gato, o humano, ou a galinha. Parece que ela prefere o que está mais disponível. Como os flébotomos preferem ficar em locais escuros, úmidos e com matéria orgânica em decomposição, quem perde nessa história são os animais. São eles que são linha de frente, são eles que ficam no quintal e estão mais disponíveis. Mas o meu animal só fica no apartamento! Mas os flebótomos sobem de elevador, e estão se adaptando em novos ambientes. Eles são ecléticos, evoluídos e acompanham as novas tendências!

Slid Filipi Dantas Torres (Bari University/ Fiocruz/ Brasileish)

Por essa razão, dos flebotomineos serem tão espertinhos, eles dão um “olé” nos pesquisadores. Como ele gosta de sangue, podemos colocar uma isca para eles, como galinhas por exemplo. As galinhas não se infectam, elas só servem para o repasto sanguíneo das fêmeas de flebotomíneos. Mas em contrapartida, aumentamos a população dos flebotominios na região e aumentamos a chance deles de infectarem, e corremos o risco de nos infectarmos.

Slid Dr. Filipi Dantas Torres (Bari University/ Fiocruz/ Brasileish)

Mas como ele se infecta? Não dá para responder quem nasceu primeiro, se foi o ovo ou a galinha.

Sabemos que para o parasito se desenvolver no tubo digestivo das fêmeas de flebotomineos, é necessário um pH ideal. E se alterassemos esse pH? Os flebotomineos se adaptariam as adversidades. Afff..... então!?

É necessário muita pesquisa ainda....

Por causa dessa alta prevalência na nossa região, é necessário proteger os animais contra a picada dos flebotomíneos. Atualmente dispomos somente de produtos para cães, como a coleira Scalibor, produtos spot on, como pulvex, advantage max 3 e produtos para aspergir como o Defendog. Esses produtos são tóxicos para os gatos e não devem ser utilizados neles.

Essa é a primeira parte do seminário, que foi uma maravilha. Tentei agrupar as informações de acordo com o que foi abordado, mas ainda tem muiiita coisa. Os palestrantes apresentaram com propriedade o assunto. Diante disso é impossível não ser fã deles.  


3 comentários:

  1. Muito esclarecedora sua informação,é preciso acabar com o mito de que a doença é transmitida diretamente do animal ao homem. NÃO AO SACRIFICIO DE ANIMAIS.

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  2. É verdade Graça. Não adianta matar o cão achando que é dessa maneira que se previne a doença.

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  3. zooantroponose: do humano para os animais. Antroponose: dos animais para humanos...

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